_Para para sentir_


Olhe aqui, Mr. Buster...

Olhe aqui, Mr. Buster: está muito certo
Que o Sr. tenha um apartamento em Park Avenue e uma casa em Beverly
[Hills.
Está muito certo que em seu apartamento de Park Avenue
O Sr. tenha um caco de friso do Partenon, e no quintal de sua casa em
[Hollywood
Um poço de petróleo trabalhando de dia para lhe dar dinheiro e de noite
[para lhe dar insônia.
Está muito certo que em ambas as residências
O senhor tenha geladeiras gigantescas capazes de conservar o seu
[preconceito racial
Por muitos anos a vir, e vacuum-cleaners com mais chupo
Que um beijo de Marilyn Monroe, e máquinas de lavar
Capazes de apagar a mancha de seu desgosto de ter posto tanto dinheiro
[em vão na guerra da Coréia.
Está certo que em sua mesa as torradas saltem nervosamente de
[torradeiras automáticas
E suas portas se abram com célula fotelétrica. Está muito certo
Que o senhor tenha cinema em casa para os meninos verem filmes de
[mocinho
Isto sem falar nos quatro aparelhos de televisão e na fabulosa hi-fi
Com alto-falantes espalhados por todos os andares, inclusive nos
[banheiros.
Está muito certo que a Sra. Buster seja citada uma vez por mês por Elsa
[Maxwell
E tenha dois psiquiatras: um em Nova York, outro em Los Angeles, para
[as duas "estações" do ano.
Está tudo muito certo, Mr. Buster - o senhor ainda acabará governador do
[seu Estado
E sem dúvida presidente de muitas companhias de petróleo, aço e
[consciências enlatadas.
Mas me diga uma coisa, Mr. Buster
Me diga sinceramente uma coisa, Mr. Buster:
O senhor sabe lá o que é um choro de Pixinguinha?
O senhor sabe lá o que é ter uma jabuticabeira no quintal?
O senhor sabe lá o que é torcer pelo Botafogo?

(Vinicius de Moraes)

Escrito por Jair às 19h22
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Do belo ( e + outra)

Nada, no mundo é, por si mesmo, feio.
Inda a mais vil mulher, inda o mais triste poema
Palpita sempre neles o divino anseio
Da beleza suprema...

(Mario Quintana)

A mosca, a debater-se: "Não! Deus não existe!
Somente o acaso rege a terrena existência!"
A aranha: "Glória a Ti, Divina Providência
Que à minha humilde teia essa mosca atraíste!"

(Mario Quintana)



Escrito por Jair às 16h57
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Velho Tema II

Eu cantarei de amor tão fortemente
Com tal celeuma e com tamanhos brados
Que afinal teus ouvidos, dominados,
Hão de a força escutar quanto eu sustente.

Quero que o meu amor se te apresente
- Não andrajoso e mendigando agrados,
Mas tal como é: - risonho e sem cuidados,
Muito de altivo, um pouco de insolente.

Nem ele mais a desejar se atreve
Do que merece: eu te amo e o meu desejo
Apenas cobra um bem que se me deve.

Clamo, e não gemo; avanço, e não rastejo
E vou de olhos enxutos e alma leve
À galharda conquista do teu beijo.

(Vicente de Carvalho)

Escrito por Jair às 13h53
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Sonho

Ter nascido homem outro, em outros dias,
- Não hoje, nesta agitação sem glória,
Em traficâncias e mesquinharias,
Numa apagada vida merencória...

Ter nascido numa era de utopias,
Nos áureos ciclos épicos da História,
Ardendo em generosas fantasias,
Em rajadas de amor e de vitória:

Campeão e trovador da Idade Média,
Herói no galanteio e na cruzada,
Viver entre um idílio e uma tragédia;

E morrer em sorrisos e lampejos,
Por um gesto, um olhar, um sonho, um nada,
Traspassado de golpes e de beijos!

(Olavo Bilac)

Escrito por Jair às 19h24
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Se fiquei esperando meu amor passar

Se fiquei esperando meu amor passar
Já me basta então que eu não sabia amar
E me via perdido e vivendo em erro
Sem querer me machucar de novo
Por culpa do amor.

Mas você e eu podemos namorar
E era simples: ficamos fortes.
Quando se aprende a amar
O mundo passa a ser seu.
Quando se aprende a amar
O mundo passa a ser seu.

Sei rimar romã com travesseiro.
Quero a minha nação soberana
Com espaço nobreza e descanso.

Se fiquei esperando meu amor passar
Já me basta que estava então longe de sereno
E fiquei tanto tempo duvidando de mim
Por fazer amor fazer sentido.

Começo a ficar livre
Espero. Acho que sim.
De olhos fechados não me vejo
E você sorriu pra mim.
(Renato Russo)

Escrito por Jair às 22h55
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A Anunciação

Virgem! Filha minha
De onde vens assim
Tão suja de terra
Cheirando a jasmim
A saia com mancha
De flor de carmesim
E os brincos da orelha
Fazendo tlintlin?

Minha mãe querida
Venho do jardim
Onde a olhar o céu
Fui, adormeci.
Quando despertei
Cheirava a jasmim
Que um anjo esfolhava
Por cima de mim...

(Vinicius de Moraes)



Escrito por Jair às 00h23
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Pintura admirável de uma beleza

Vês esse Sol de luzes coroado?
Em pérolas a Aurora convertida?
Vês a Lua de estrelas guarnecida?
Vês o Céu de Planetas adorado?

O Céu deixemos; vês naquele prado
A Rosa com razão desvanecida?
A Açucena por alva presumida?
O Cravo por galã lisonjeado?

Deixa o prado; vem cá, minha adorada,
Vês de esse mar a esfera cristalina
Em sucessivo aljôfar desatada?

Parece aos olhos ser de prata fina?
Vês tudo isto bem? Pois tudo é nada
À vista do teu rosto, Caterina.

(Gregório de Matos)

Escrito por Jair às 20h44
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Na minha rua...

Na minha rua há um menininho doente.
Enquanto os outros partem para a escola,
Junto à janela, sonhadoramente,
Ele ouve o sapateiro bater sola.

Ouve também o carpinteiro, em frente,
Que uma canção napolitana engrola.
E pouco a pouco, gradativamente,
O sofrimento que ele tem se evola. . .

Mas nesta rua há um operário triste:
Não canta nada na manhã sonora
E o menino nem sonha que ele existe.

Ele trabalha silenciosamente. . .
E está compondo este soneto agora,
Pra alminha boa do menino doente. . .

(Mario Quintana)

Escrito por Jair às 22h07
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Soneto
(Maciel Monteiro)


  Formosa, qual pincel em tela fina

 Debuxar jamais pôde ou nunca ousara;

 Formosa, qual jamais desabrochara

 Na primavera a rosa purpurina;

 

 Formosa, qual se a própria mão divina

 Lhe alinhara o contorno e a forma rara; 

Formosa, qual no céu jamais brilhara 

Astro gentil, estrela peregrina;

 

Formosa, qual se a natureza e a arte,

Dando as mãos em seus dons, em seus lavores,

Jamais pôde imitar no todo ou parte;

 

  Mulher celeste, ó anjo de primores! 

Quem pode ver-te, sem querer amar-te? 

Quem pode amar-te, sem morrer de amores?!



Escrito por Jair às 10h11
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balada das duas mocinhas de botafogo
(Vinicius de Moares)


Eram duas menininhas
Filhas de boa família:
Uma chamada Marina
A outra chamada Marília.
Os dezoito da primeira
Eram brejeiros e finos
Os vinte da irmã cabiam
Numa mulher pequenina.
Sem terem nada de feias
Não chegavam a ser bonitas
Mas eram meninas-moças
De pele fresca e macia.
O nome ilustre que tinham
De um pai desaparecido
Nelas deixara a evidência
De tempos mais bem vividos.
A mãe pertencia à classe
Das largadas de marido
Seus oito lustros de vida
Davam a impressão de mais cinco.
Sofria muito de asma
E da desgraça das filhas
Que, posto boas meninas
Eram tão desprotegidas
E por total abandono
Davam mais do que galinhas.

Casa de porta e janela
Era a sua moradia
E dentro da casa aquela
Mãe pobre e melancolia.
Quando à noite as menininhas
Se aprontavam pra sair
A loba materna uivava
Suas torpes profecias.
De fato deve ser triste
Ter duas filhas assim
Que nada tendo a ofertar
Em troca de uma saída
Dão tudo o que têm aos homens:
A mão, o sexo, o ouvido
E até mesmo, quando instadas
Outras flores do organismo.

Foi assim que se espalhou
A fama das menininhas
Através do que esse disse
E do que aquele diria.
Quando a um grupo de rapazes
A noite não era madrinha
E a caça de mulher grátis
Resultava-lhes maninha
Um deles qualquer lembrava
De Marília e de Marina
E um telefone soava
De um constante toque cínico
No útero de uma mãe
E suas duas filhinhas.
Oh, vida torva e mesquinha
A de Marília e Marina
Vida de porta e janela
Sem amor e sem comida
Vida de arroz requentado
E média com pão dormido
Vida de sola furada
E cotovelo puído
Com seios moços no corpo
E na mente sonhos idos!

Marília perdera o seu
Nos dedos de um caixeirinho
Que o que dava em coca-cola
Cobrava em rude carinho.
Com quatorze apenas feitos
Marina não era mais virgem
Abrira os prados do ventre
A um treinador pervertido.
Embora as lutas do sexo
Não deixem marcas visíveis
Tirante as flores lilases
Do sadismo e da sevícia
Às vezes deixam no amplexo
Uma grande náusea íntima
E transformam o que é de gosto
Num desgosto incoercível.

E era esse bem o caso
De Marina e de Marília
Quando sozinhas em casa
Não tinham com quem sair.
Ficavam olhando paradas
As paredes carcomidas
Mascando bolas de chicles
Bebendo água de moringa.
Que abismos de desconsolo
Ante seus olhos se abriam
Ao ouvirem a asma materna
Silvar no quarto vizinho!
Os monstros da solidão
Uivavam no seu vazio
E elas então se abraçavam
Se beijavam e se mordiam
Imitando coisas vistas
Coisas vistas e vividas
Enchendo as frondes da noite
De pipilares tardios.
Ah, se o sêmem de um minuto
Fecundasse as menininhas
E nelas crescessem ventres
Mais do que a tristeza íntima!
Talvez de novo o mistério
Morasse em seus olhos findos
E nos seus lábios inconhos
Enflorescessem sorrisos.
Talvez a face dos homens
Se fizesse, de maligna
Na doce máscara pensa
Do seu sonho de meninas!

Mas tal não fosse o destino
De Marília e de Marina.
Um dia, que a noite trouxe
Coberto de cinzas frias
Como sempre acontecia
Quando achavam-se sozinhas
No velho sofá da sala
Brincaram-se as menininhas.
Depois se olharam nos olhos
Nos seus pobres olhos findos
Marina apagou a luz
Deram-se as mãos, foram indo
Pela rua transversal
Cheia de negros baldios.
Às vezes pela calçada
Brincavam de amarelinha
Como faziam no tempo
Da casa dos tempos idos.
Diante do cemitério
Já nada mais se diziam.
Vinha um bonde a nove-pontos...
Marina puxou Marília
E diante do semovente
Crescendo em luzes aflitas
Num desesperado abraço
Postaram-se as menininhas.

Foi só um grito e o ruído
Da freada sobre os trilhos
E por toda parte o sangue
De Marília e de Marina.

Escrito por Jair às 01h32
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Miragem

Ouve, pois quando ela fala
O corpo e a alma se enchem
De um novo ar que exala
Incrível doçura inocente

É tão suave que quando balança
Pra lá e pra cá num segundo
Cativa as mãos da criança
E conquista os olhos do mundo

Bela morena clara
Numa pureza tão rara
Que nem vi já passou...

Desta pequena companhia
Fica a perene alegria
Em quem de certa forma te amou.

(Jair G S)

Escrito por Jair às 01h14
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Via Láctea XXXV

Pouco me pesa que mofeis sorrindo
Destes versos puríssimos e santos:
Porque, nisto de amor e íntimos prantos,
Dos louvores do público prescindo.

Homens de bronze! um haverá, de tantos,
(Talvez um só) que, esta paixão sentindo,
Aqui demore o olhar, vendo e medindo
O alcance e o sentimento destes cantos.

Será esse o meu público. E, decerto,
Esse dirá: "Pode viver tranqüilo
Quem assim ama, sendo assim amado!"

E, trêmulo, de lágrimas coberto,
Há de estimar quem lhe contou aquilo
Que nunca ouviu com tanto ardor contado.

(Olavo Bilac)



Escrito por Jair às 19h42
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Via Láctea XIII

"Ora (direis) ouvir estrelas! Certo
Perdeste o senso!" E eu vos direi, no entanto,
Que, para ouvi-las, muita vez desperto
E abro as janelas, pálido de espanto...

E conversamos toda a noite, enquanto
A via-láctea, como um pálio aberto,
Cintila. E, ao vir do sol, saudoso e em pranto,
Inda as procuro pelo céu deserto.

Direis agora: "Tresloucado amigo!
Que conversas com elas? Que sentido
Tem o que dizem, quando estão contigo?"

E eu vos direi: "Amai para entendê-las!
Pois só quem ama pode ter ouvido
Capaz de ouvir e de entender estrelas".

(Olavo Bilac)



Escrito por Jair às 19h37
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Via Láctea XII


Soube que me esperavas. E, sonhando,
Saí, ansioso por te ver: corria...
E tudo, ao ver-me tão depressa andando,
Soube logo o lugar para onde eu ia.

E tudo me falou, tudo! Escutando
Meus passos, através da romaria,
Dos despertados pássaros o bando:
"Vai mais depressa! Parabéns!" dizia.

Disse o luar: "Espera" Que eu te sigo:
Quero também beijar as faces dela!"
E disse o aroma: "Vai que eu vou contigo!"

E cheguei: E, ao chegar, disse uma estrela:
"Como és feliz! Como és feliz, amigo,
Que de tão perto vais ouvir e vê-la!"

(Olavo Bilac)



Escrito por Jair às 09h19
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Via Láctea VII

Não têm faltado bocas de serpentes,
(Dessas que amam falar de todo o mundo,
E a todo o mundo ferem, maldizentes)
Que digam: "Mata o teu amor profundo!

Abafa-o, que teus passos imprudentes
Te vão levando a um pélago sem fundo...
Vais te perder!" E, arreganhando os dentes,
Movem para o teu lado o olhar imundo:

"Se ela é tão pobre, se não tem beleza,
Irás deixar a glória desprezada
E os prazeres perdidos por tão pouco?

Pensa mais no futuro e na riqueza!"
E eu penso que afinal... Não penso nada:
Penso apenas que te amo como um louco!

Olavo Bilac

Escrito por Jair às 13h07
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